Durante as Olimpíadas Rio 2016, desiludida com o desempenho da seleção brasileira de futebol na Copa 2014 e nas Eliminatórias da Copa 2018, a torcida se encantou com seleção feminina de futebol, liderada pela artilheira Marta. Foi então que uma foto chamou a atenção de todos e traduziu o sentimento geral. De costas, o menino Bernardo tinha em sua camisa 10 amarela o nome de "Neymar Jr." riscado, e, logo abaixo, escrito à mão, o nome de "Marta". A imagem se espalhou de forma viral, e, ao longo dos jogos, conforme o sucesso ou insucesso dos ídolos ou o avançar da crise política no país, deu origem a outras interpretações.
O treinador da seleção masculina de vôlei, Bernardinho, já era uma figura folclórica do esporte, muito antes das Olimpíadas Rio 2016. Ao lado de outros ícones, e seguindo uma escola muito próxima da do treinador russo Karpol, famoso pelo destempero nas quadras, Bernardinho acabou se tornando uma espécie de xodó da torcida, pelas suas expressões durante as partidas. Os internautas chegaram a criar uma "Escala Bernardinho" de reações emocionais. Na imagem, o diálogo peculiar entre o pai e o filho, Bruninho, levantador da seleção brasileira.
Figura mítica da imprensa, Galvão Bueno normalmente evoca extremos. Há quem o ame, há quem o odeie, como locutor esportivo. Na Copa do Mundo da África do Sul, em 2010, os haters se organizaram para protestar. Eram gritos nos estádios, durante os jogos das eliminatórias para a Copa, e, mais tarde, um grande protesto pela internet. No Twitter, muitos torcedores resolveram publicar, de forma organizada, mensagens com a hashtag #calabocagalvao, como forma de expressar sua revolta com as "bobagens" e "exageros" ditos pelo narrador nas transmissões. O movimento foi tão intenso que muitos estrangeiros ficaram se perguntando o que significava aquela expressão em português. Foi então que o blogueiro Cid iniciou uma espécie de "pegadinha", descrevendo o #calabocagalvao como uma campanha em favor dos "pássaros galvão", ameaçados de extinção. Assim, cada pessoa que digitasse #calabocagalvao estaria ajudando na campanha. Estava criada uma das maiores trollagens de que se tem notícia. Depois de descoberta a farsa, o nome de Galvão Bueno se tornou mundialmente famoso pelo episódio, a tal ponto que o verbete sobre o locutor na Wikipédia internacional tem longos sete parágrafos sobre o caso. A pesquisadora Heather Horst descreve o #calabocagalvao como "a maior piada interna do mundo", pois só nós, brasileiros, entendemos.
As transmissões esportivas também são alvos corriqueiros de reinterpretação na internet. E os estereótipos criados em torno de outras nacionalidades ajudam a criar novos contextos sobre as disputas envolvendo seleções de outros países. Na Copa do Mundo do Brasil, em 2014, as emissoras utilizaram um recurso para exibir as letras dos hinos nacionais, ao início de cada partida. Foi então que alguns internautas, com vasto repertório musical, resolveram subverter os hinos com letras bem mais familiares.
Ainda na Copa do Mundo de 2014, o fatídico resultado entre o jogo de Brasil e Alemanha pela semifinal do campeonato deu origem, naturalmente, a uma série de piadas. O "7 a 1" se tornou uma expressão clara de como o brasileiro sabe rir de si mesmo, e, ao mesmo tempo, se tornou um lugar-comum acionado por várias outras piadas, com uma espécie de subtexto bem humorado. "Todo dia um 7 a 1", por exemplo, remete às dificuldades pessoais ou sociais enfrentadas por cada indivíduo. Na imagem, a premier alemã Angela Merkel cumprimenta Dilma Rousseff, afirmando que ambas tentaram "comprar" resultados na Copa, mas que ela própria fora mais bem sucedida por pagar em euro. As referências implícitas são muitas e vão bastante além do "7 a 1" em si. Elas tratam da crise do real brasileiro, dos escândalos de corrupção e compras de resultados na FIFA, e muito mais.
A rivalidade esportiva não se resume às disputas entre times durante um campeonato ou uma liga, mas também à rivalidade entre as modalidades. No exemplo, uma crítica do futebol americano ao futebol tradicional. Nessa mesma linha, encontram-se também críticas do hóquei ao basquete, do MMA ao boxe etc. Geralmente, há uma carga nas mensagens que evoca uma certa "masculinidade" diante da "fraqueza" do outro esporte.
Os memes da Copa do Mundo 2014 também serviram para tecer críticas sociais e questionar políticas públicas e a aplicação de recursos em obras que pouco beneficiavam a população. "Imagina na Copa" é uma expressão ambígua, que questiona o potencial do país em sediar grandes eventos, bem como apresenta um problema identificado pelo cidadão comum em seu cotidiano.
Tido como torcedor-símbolo pela imprensa, Clóvis Acosta Fernandes acompanhava a seleção brasileira em Copas do Mundo desde a década 1990. Suas imagens na Copa de 2014 geraram inúmeros memes, especialmente após o fracasso da seleção brasileira na competição, representando a paixão da torcida e também o "apego" pela vitória.